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A Destrutividade Humana

Olá, caro leitor!

O ser humano é, por excelência, o ser da criação. Desde a antiguidade, é dele a responsabilidade da criação de instrumentos, artefatos, escrita e de normas de convívio. É dele também o mérito de como foram se organizando as sociedades e as mais diversas culturas, do plantio e cultivo dos mais variados tipos de alimentos e das significativas transformações ocorridas no meio em que habita.

É responsável pelo surgimento da ciência, da medicina, do universo tal qual o conhecemos, da história, da engenharia, da energia elétrica, da arte e da civilização. É por intermédio dele que a natureza se transforma, se reinventa e o conhecimento evolui. Não há dúvidas de que o ser humano é o ser da criatividade. Eu hoje, no entanto, quero chamar a atenção para o lado escuro do ser humano: a sua destrutividade.

A mídia evidencia momentos de tragédias absolutas na estampa do nosso mundo. A catástrofe sem precedentes ocorrida em Minas Gerais, que abriu um rastro de devastação ambiental despejando o sangue mineiro-capixaba nas águas do nosso Atlântico; os recentes ataques de extremistas do Estado Islâmico à França, que chocou e choca o mundo; a incessante e devastadora Guerra Santa e a recorrente intervenção bélica, igualmente devastadora, das potências do ocidente no Oriente Médio. Até que ponto vai a destrutividade, ou o potencial destrutivo, humano? Bem, ouso dizer talvez sejam eles parte integrante da vida psíquica de todo e qualquer ser humano.

“Mas como assim? Não faço nada de mal a ninguém!”, alguém poderia afirmar. De fato, talvez não mesmo. Mas será que conseguimos enxergar tudo em nós mesmos? Lembra-se da regra nº1? Retomemos as nossas regrinhas:

Regra 1: Não estamos em completo comando de nossa mente.

Regra 2: Vamos abstrair. A nossa mente é composta de representações.

Regra 3: Talvez não pareça, mas a mente é absurdamente complexa.

Regra 4: Na mente, coisas contraditórias podem coexistir.

 

Há um fator que dificulta ainda mais a lida com a destrutividade: ela mora no nosso inconsciente. E mais: às vezes o nosso potencial destrutivo pode vir disfarçado de amor (regra nº4). O ser humano tampouco se conhece por inteiro e assim, psiquicamente, não pode ser completamente dono de seus atos (regra nº1). E penso que, ainda que o seu caráter civilizatório o barre em partes, o ser humano é em essência, além de um exímio criador, um exímio destruidor.

Mas engana-se quem pensa que a destrutividade tem somente a ver com ação. Ela também reside na própria paralização, na inércia e na incapacidade de cuidar. Reside no descuido, tal qual como o que vimos em Mariana-MG.

E por que, então, as tragédias chocam tanto? Por que nos causa tamanha inquietude quando pensamos no cinturão de explosivos da mulher-bomba que se explodiu naquele hotel em Paris? Quem sabe por estar, o potencial destrutivo – e a sua magnitude -, mais perto do que se imagina: dentro de nós. E isso nos choca (forte, não?! Mas lembremos da regra º 4).

Contudo, penso que o perigo da destrutividade não reside na sua existência. O potencial destrutivo faz parte da natureza humana. O perigo reside na impossibilidade de a pessoa reconhecê-lo em si mesma. Trago logo abaixo e para a coluna de hoje, uma pintura que retrata bem a representação do que eu chamaria de “nossos pontos-cegos”.

“La Reproduction Interdite” (1937), de René F.Magritte

Na pintura, é possível perceber uma pessoa que enxerga, refletido no espelho, algo impossível na nossa realidade cotidiana: o reflexo de suas costas (é clara na obra de René Magritte a representação das debilidades visuais humanas). Pois bem, assim como nessa pintura, temos partes nossas que, como num espelho, custa-nos a perceber e que, ufa, criamos outros recursos pra isso! Mas o que isso tem a ver com a nossa destrutividade?

O potencial destrutivo é parte integrante do ser humano, que é falho em reconhecer sozinho suas próprias características e debilidades. É custoso perceber isso, como também é difícil enxergar as nossas costas sem um auxílio qualquer (como um outro espelho ou, abstratamente, um psicoterapeuta – regra nº2).

O potencial destrutivo humano se faz presente quando não há a possibilidade de conter, suportar e digerir o que vem de dentro no nosso convívio com as coisas. É onde se vêem nulas quaisquer possibilidades de construção e criação.

É importante enfatizar que não tenho a pretensão de esgotar o assunto em seus possíveis caminhos reflexivos. Não cabe aqui discutir preceitos ideológicos, religiosos ou mesmo político-sociais, ainda que tenham o seu espaço no mundo subjetivo.

Por fim, a destrutividade, ou o potencial destrutivo, goteja silenciosa por entre (e dentro de) nós desde sempre. Encontra-se nos mais terríveis genocídios e nos atentados da indústria de alimentos fast-food à nossa mesa. Está na intimidade e também nas palavras de um determinado momento com determinado alguém. Na inoperância da moça do telemarketing, no gesto, no gasto exagerado com o cartão de crédito, no preconceito, no espelho e na sua relação com você e com o seu meio. Estamos sempre agredindo e, muitas vezes, sem nem saber o motivo e até sem perceber. Mas podemos, quem sabe, buscar auxílio para o que nos é difícil enxergar sozinhos.

Um abraço e até o próximo texto!

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