Marília

13 de maio: o que o movimento negro ainda precisa conquistar?

Marílis de Lima Machado é presidente do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial em Marília (Foto: Arquivo Pessoal)

Já se passaram 134 anos desde que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, pela abolição da escravatura no país. Apesar de ter passado mais de um século e inúmeras conquistas terem sido juntadas ao longo do caminho, ainda há muito o que percorrer.

Em Marília, por exemplo, apenas 30% da população se autointitula negra, de acordo com o Censo de 2010. Apesar disso, a presidente do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, Marílis Custódio de Lima Machado, afirma que a estatística não condiz com a realidade, e que este é um dos resultados do preconceito racial.

“Há relatos de pessoas da área da saúde que atendem negros que se autointitulam brancos. Se pensarmos na discriminação, é uma forma de autodefesa”, explica.

Marílis destaca que ainda há – nos dia de hoje – um resquício da falta de cuidado com a comunidade negra, que vem desde o período da abolição da escravatura.

A presidente conta que, naquela época, os escravizados se tornaram livres de um dia para o outro, mas não foi pensado em como eles viveriam e se manteriam.

“Os escravizados se tornaram marginalizados porque foram criadas leis que puniam os desocupados. (Hoje) ainda temos grande parte da nossa sociedade que considera os negros como seres inferiores. O racismo está mais presente do que imaginamos. A maioria da população negra não se vê representada em cargos de liderança, nem na política”, pontua

INSPIRAÇÃO PARA ESCREVER

João Astaque é escritor e estudante de Ciências Sociais da Unesp Marília (Foto: Arquivo Pessoal)

Na contrapartida em anseio pela aceitação numa sociedade acolhedora, justa e mais inclusiva nas aspectos raciais, o estudante de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília e escritor João Astaque usa a experiência pessoal como inspiração para escrever.

“(Eu) me identifico com a literatura marginal periférica, meus textos são uma mistura de vivências pessoais e de questões sociais”, conta.

Em 2020, Astaque criou a própria editora junto com um amigo e publicou seu primeiro livro, chamado “O lado mais frio da cidade é o esquerdo do meu peito”.

A obra é descrita como uma coleção de dezesseis crônicas narradas por um personagem anônimo, que revela ao leitor em um tom confessional, pequenas estórias cotidianas. O autor expõe as percepções de um jovem adulto sobre os conflitos com a sociedade, as frustrações e os desejos não realizados. Trabalho, racismo, drogas e sonhos são alguns dos temas abordados.

O escritor defende que ainda há muito a ser feito pela comunidade negra. “Mesmo um século depois (da abolição), os dados nos mostram que as pessoas negras são a maioria em índices de pobreza, violência e encarceramento, e que ainda são minoria nas universidades, em cargos de liderança, seja no poder público ou privado, demonstrando a necessidade de um esforço conjunto para o real enfrentamento do racismo estrutural do nosso país”, diz.

Apesar da luta diária, Astaque exalta os ganhos. “Exemplo é a lei de cotas raciais nas universidades públicas que completa dez anos em agosto, política que permitiu o ingresso de uma quantidade considerável de pessoas negras no ensino superior, possibilitando a ascensão social dessa parcela da população e como consequência, um maior engajamento em torno das questões raciais”, completa.

VIOLÊNCIA É DE FATO MAIOR

De acordo com a edição de 2021 do Atlas da Violência, em 2019, os negros (soma dos pretos e pardos da classificação do IBGE) representaram 77% das vítimas de homicídios, com uma taxa de homicídios por 100 mil habitantes de 29,2.

Comparativamente, entre os não negros (soma dos amarelos, brancos e indígenas), a taxa foi de 11,2 para cada 100 mil, o que significa que a chance de um negro ser assassinado é 2,6 vezes superior àquela de uma pessoa não negra.

Michele Correia

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