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O Nobel e o Oscar

Geral
22 de outubro de 2016
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Tela que ilustra artigo de hoje: Figura na rede, óleo de Ranchinho de Assis, 1986.

Se dependêssemos do Nobel para que o mundo reconhecesse a importância da literatura brasileira e do Oscar para que a nossa sétima arte entrasse na história mundial do audiovisual ficaríamos desolados, sem acesso à primeira divisão.

Ainda não conquistamos o Nobel de literatura – e quem ganhou neste ano, o compositor e cantor Bob Dylan, pouco se importou para o prêmio – mas nem por isso os nossos escritores estão de escanteio.

Luiz Ruffato, só para citar um dos contemporâneos em plena atividade, vem ganhando uma tradução estrangeira atrás da outra.

Raduan Nassar, que optou pela lida do campo no Interior de São Paulo e pouco – ou quase nada – escreveu depois de obras magníficas como ‘Lavoura arcaica’ e ‘Um copo de cólera’, conquistou neste ano o Prêmio Camões, este sim o Nobel da produção literária em língua portuguesa.

Quanto ao Oscar, não precisamos ganhar a estatueta na noite de gala para reconhecermos em Fernanda Montenegro uma das maiores intérpretes do mundo.

Claro que, naquele ano em que a Fernanda Montenegro foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo filme de Walter Salles, ‘Central do Brasil’, torcemos por ela feito final de futebol, mas, não foi daquela vez.

Contudo, isso não significou que novos diretores brasileiros fossem reconhecidos com novas indicações e convidados para projetos em Hollywood.

Embora o cinema brasileiro ainda não tenha conquistado o Oscar, isto não impediu que José Padilha, de ‘Tropa de Elite’, fosse convidado para dirigir longas nos Estados Unidos e muito menos minguado os projetos cinematográficos internacionais tendo à frete o grande cineasta brasileiro Fernando Meirelles, de ‘Cidade de Deus’.

Prêmios são importantes, mas servem, basicamente, para trazer à tona o seu vencedor que, muitas vezes, não reflete a característica essencial da arte praticada pelo seu país de origem.

O escritor brasileiro Paulo Coelho, um dos autores mais lido do mundo, tem chancela para conquistar um Nobel de literatura. Contudo, sua obra não dialoga diretamente com a essência de seu país de origem.

Em hipótese de vitória para o Mago – que tem milhares de leitores, entre eles eu – não teríamos por parte da Academia Sueca, que confere o prêmio, uma homenagem às letras brasileiras, mas sim o reconhecimento a um escritor nascido aqui.

Ainda que Bob Dylan tenha demonstrado pouco caso com o prêmio recém-conquistado, as composições do músico dialogam com o cancioneiro popular dos Estados Unidos e foi para este cancioneiro que o Nobel foi apontado pelos acadêmicos suecos.

É como se a extraordinária música norte-americana recebesse o galardão. O mesmo poderia ocorrer se, em ‘Robocop’, longa de José Padilha de 2014, a academia de Hollywood conferisse o Oscar de Melhor Diretor para o brasileiro.

Padilha, que é um excepcional diretor, poderia até ter levado a estatueta. Nós brasileiros ficaríamos orgulhosos, mas o mérito não poderia ter sido estendido ao cinema brasileiro, uma vez que ‘Robocop’ não é ‘Cidade de Deus’, ‘Tropa de Elite’ nem ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’, estes sim, filmes com conteúdo e linguagem tipicamente do nosso Brasil.