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A nossa aldeia

Geral
29 de outubro de 2016
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Tela que ilustra o artigo é do artista naif Aloisio Dias da Silva.

‘Marília de chegar. Marília de partir. Marília de ficar eterna’. Estes são versos do poeta mariliense Otávio Machado, que acaba de lançar ‘Nada foi em vão’, pela editora Autografia.

O livro é uma declaração de gratidão e amor ao município que leva o nome da musa do poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga. Ao que tudo indica, nossa cidade é a única do Brasil, e uma das poucas do mundo, cujo nome foi inspirado em um poema.

Escritores e poetas batizam uma série de cidades brasileiras: Humberto de Campos, no Maranhão, Castro Alves, na Bahia, e, como não poderia ser diferente no Estado de São Paulo, Monteiro Lobato, perto de Taubaté. Mas são raros os casos de obras literárias batizarem municípios ou Estados.

O contrário – municípios e lugares inspirarem obras literárias –  é frequente. “Recordo aquela rua que eu passava/tarde de noite, depois de te ver/rua comprida que causava medo,/silêncio profundo, latido de cães/ecoando no escuro/rua da lembrança/perdida no tempo/ – um amor que ficou/ espalhado na vida,/cravado para sempre/ saudade tua…”. Só por este trecho de Otávio Machado temos uma noção de como a nossa aldeia nos deixa marcas, impressões e sentimentos que o tempo não apaga de forma alguma.

Tem um trecho de um poema de um grande amigo poeta, também de Marília, Gustavo Felicíssimo – hoje editor radicado na Bahia de Jorge Amado e Adonias Filho – que diz, entre outras palavras e sentimento que ‘Marília é tudo que ainda angra’ [Blues para Marília].

E, Augusto dos Anjos, o parnasiano que descreve secreções e órgãos humanos com a precisão de um cirurgião, tem um dos melhores trechos poéticos de reflexões enquanto se observa o cenário urbano: ‘Recife. Ponte Buarque de Macedo/ Eu, indo em direção à casa do Agra/ Assombrado com a minha sombra magra,/Pensava no destino, e tinha medo’.

Os versos estão em ‘As cismas do destino’. A nossa aldeia é o ponto de partida para a observação e, no caso dos escritores e poetas, a fagulha para o desenrolar de romances, poemas e composições literárias.

Me encontrei na sexta-feira com um amigo poeta e escritor que, recentemente, esteve no Chile e me contava que a atmosfera vivida por Pablo Neruda permanecia como intacta integralmente lá.

Neruda, em uma de suas crônicas – ‘Diário de viagem’ – relatou sensação muito semelhante quando esteve em Petrópolis, no Rio de Janeiro, na companhia de Vinícius de Moraes.

Petrópolis havia sido, décadas antes da visita do poeta chileno, a cidade de Gabriela Mistral, diplomata do Chile e poeta vencedora do Nobel de Literatura de 1945.

Gabriela, segundo Neruda, viveu na cidade fluminense “as horas mais felizes e mais desditadas de sua existência”.

Este misto de extrema alegria e infortúnio é comum ao cotidiano de quem passa anos numa mesma aldeia, variando entre o amor profundo e o ódio mortal.

E, para encerrar este texto que comecei escrevendo querendo relatar a experiência que tive ao visitar a casa do poeta Mário de Andrade, em São Paulo, e as impressões que me ocorreram quando tomei conhecimento da explosão em Paraguaçu Paulista [a minha aldeia natal], mas o tema ficará para uma outra crônica, cito o escritor russo Liev Tolstói: ‘canta a tua aldeia e serás universal’.