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O dia em que a Cleitom explodiu

Geral
12 de novembro de 2016
ranchinho-maria-fumaca-1981

A tela que ilustra o artigo é ‘Maria-fumaça’, de 1981, do artista naif Ranchinho de Assis.

Conforme havia prometido quando conclui a crônica ‘A nossa aldeia’, vou abordar neste texto as impressões que tive quando, há duas semanas, um raio provocou a maior explosão registrada na história de Paraguaçu Paulista, a 80 quilômetros de Marília.

Para um paraguaçuense a usina de beneficiamento de algodão chama-se Cleitom, mais propriamente ‘a Cleitom’. Faz parte do colóquio da cidade que sempre é lembrada como berço das termas de águas quentes, ou palco do início da carreira das Irmãs Galvão, e, mais recentemente, a cidade da maria-fumaça, o trenzinho caipira que, movido a lenha, te leva para um passeio pelos trilhos do passado.

Fiz este passeio e recomendo a todos de Marília e região que o façam.

Para quem não acompanhou o caso, explico: na noite de 24 de outubro, após receber uma enorme descarga elétrica provocada por um raio, um tanque de combustível da usina Louis Dreyfus – este sim, o verdadeiro nome da Cleitom – explodiu causando ao menos cinco feridos.

Uma moradora do bairro onde a usina está instalada morreu de infarto quando uma peça que voou do tanque caiu dentro da sua casa. Moradores relataram que a explosão foi impressionante.

Nasci em Paraguaçu e lá vivi até os meus 19 anos. Minha avó materna – que está com 86 anos e para quem dediquei o romance policial ‘A próxima Colombina’ – morou por décadas a duas quadras da Cleitom, no bairro Barra Funda.

Meu avô trabalhava no posto de sementes, localizado em frente a usina que explodiu. E, por toda a cidade, é possível ouvir o apito da usina – até hoje não sei ao certo o motivo do apito se é para esvaziar o vapor da caldeira ou para marcar as trocas de turnos.

Quando era criança, a Cleitom apitava às seis da manhã, às sete [tinha que correr, porque estava no meio do caminho para chegar ao Grupão, a escola, antes das 7h15], ao meio-dia, às duas da tarde, às quatro da tarde, às seis da tarde [estava no campinho jogando bola, então era a hora de fazer o nome-do-pai e voltar para a casa] e, finalmente às dez da noite [parávamos de brincar de pique-bandeira na rua e, meninos e meninas, entravam em suas casas para dormir].

Quem cresceu na cidade de Paraguaçu sabe que a Cleitom era uma norteadora dos horários. Nunca passou pela cabeça que a Cleitom poderia explodir. Afinal, a lenda urbana que se espalhava era de que, se, uma caldeira das usinas de álcool e açúcar – estas instaladas todas na zona rural do município – explodisse os estilhaços chegariam até a área urbana.

Ninguém se dava conta de que algo poderia ocorrer na usina que ficava dentro da cidade. Nas imediações da Cleitom havia um mito. Aliás, um mito esteve na Cleitom. O craque Mané Garrincha, campeão das Copas de 1958 e 1962 [artilheiro da Copa de 1962] jogou no campo de futebol da Cleitom. Ou teria jogado lá, segundo relato dos moradores mais antigos, numa visita que o Anjo das Pernas Tortas fez ao município de Paraguaçu Paulista.

Mas o mito que habitava naquela região da cidade era o do ‘buracão’. Uma enorme erosão que havia no final da Barra Funda e que, segundo os mais antigos – inclusive a minha bisavó que viveu ali por muitos anos – engoliria toda a Paraguaçu, no fim dos tempos.

Quem coletou muito dos mitos genuínos da cultura brasileira foi o escritor e poeta Mário de Andrade. O modernista reuniu a mitologia brasileira em várias obras, como no romance ‘Macunaíma’.

As narrativas autênticas da nossa gente, inclusive profecias populares, são inspiradoras para a produção literária. Não à toa dramaturgos que fizeram a história da telenovela brasileira, como Dias Gomes, alcançaram enorme sucesso ao transpor às telas os mitos contados pelo Brasil de dentro.

Num tempo em que a artificialidade rege as tramas das novelas brasileiras, encerro esta crônica fazendo uma reivindicação ao Ministério Público do Trabalho e aos sindicatos: que fiscalizem e façam o monitoramento das condições de segurança e dos ambientes de trabalho das usinas da região.

Isso para que novas tragédias não se repitam e para que os profissionais possam trabalhar sem que suas vidas fiquem expostas ao perigo.