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Ariano Suassuna e José Saramago

Geral
04 de março de 2017

Sempre quando me perguntavam qual era o maior escritor de Língua Portuguesa em atividade respondia de pronto: José Saramago.

De fato, o Nobel de Literatura – aliás, o único Prêmio Nobel de Literatura do idioma português – até 2010, ano de sua morte, concentrou méritos e talento que o colocava na vanguarda do fazer literário entre todos os escritores lusófonos.

Mia Couto, de Moçambique, já tinha reconhecimento internacional nesta época em que eu classificava o autor de ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ como o soberano das nossas letras. Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, ambos mestres do conto brasileiro, também já tinham tirado o meu fôlego em tramas concisas e cortantes, cujos impactos sinto até os dias de hoje.

Mas, outro dia, em visita à biblioteca de Marília, me deparei com um livro: ‘A pedra do Reino’, de Ariano Suassuna.

Pensei: “Ariano tinha tanta erudição e, ao mesmo tempo, tanta bagagem da nossa cultura popular, que, realmente poderia ter conquistado um Nobel de Literatura”.

Talvez, se a Academia Sueca ao invés de contemplar o escritor de ‘A Caverna’ e ‘Levantados do Chão’, em 1998, transferisse o prêmio para o escritor de ‘O auto da Compadecida’ e ‘Uma mulher vestida de sol’, certamente Ariano ocuparia um protagonismo internacional muito semelhante ao de José Saramago.

Embora, Ariano jamais desejasse ter uma carreira de best-seller internacional, a exemplo do que conquistou o brasileiro Paulo Coelho.

Certa feita, quando abordado por um colega sobre quais padrões e critérios eram utilizados para batizar seus personagens, Ariano respondeu que recorria aos nomes que faziam parte do contexto da sua região, do seu universo sertanejo. “Pois eu, não”, respondeu o pseudointelectual. “Prefiro usar nomes que, numa possível tradução do meu livro para outro idioma, não assustem tanto o leitor estrangeiro. Por exemplo, Martim é um nome de personagem que sempre utilizo. Pois é comum tanto no francês, quanto no inglês”.

Ariano nunca deu ouvidos ao que o colega lhe quis impor. João Grilo, Chicó, Pedro Quaderna continuaram a sair do ambiente da cultura popular que Ariano tanto amava. Moral da história: este amigo de Ariano nunca foi traduzido para outro idioma.

As peças e os romances de Suassuna já foram convertidos para o inglês, espanhol, francês, polonês, holandês e alemão. O escritor que era nascido na Paraíba – filho do então governador da época, João Suassuna – tinha por hábito só escrever à mão seus originais.

O pai de Ariano foi assassinado durante a instabilidade política de 1930, por motivos políticos daquela época. Este fato marcou toda a trajetória literária de Ariano, que muito transpôs para as letras através do personagem narrador de ‘A pedra do reino’, Pedro Quaderna.

A genialidade de Ariano o coloca entre os maiores escritores da Língua Portuguesa. Aliás, após a morte de Saramago em 2010, quando me perguntavam quem era o maior escritor de Língua Portuguesa em atividade, dizia de pronto Ariano Suassuna. Isso foi até 2014, quando Ariano nos deixou.

Hoje, se me perguntarem, respondo que o maior escritor de Língua Portuguesa em atividade é Dalton Trevisan, o autor recluso de Curitiba.