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A última edição

Geral
28 de janeiro de 2017
Nildo Carlos de Oliveira

Nildo Carlos de Oliveira.

A semana que termina me trouxe uma notícia muito triste. A morte de um jornalista e escritor que me inspirava de forma absoluta.

Perdemos, vítima de um infarto fulminante, Nildo Carlos Oliveira. Nascido em Alagoas – as Alagoas de Graciliano Ramos, de ‘Vidas Secas’, ‘Angústia’ e ‘Memórias do Cárcere’ – Nildo migrou para Marília ainda na infância.

Nas terras novas da Alta Paulista sua família se instalou na busca por uma vida melhor – refazendo a trilha que tantos outros brasileiros do Nordeste haviam feito anos antes e continuaram nas décadas seguintes.

Um destes brasileiros, baiano mais propriamente dito, se encontrava em Marília por esta mesma época. Era o escritor Osório Alves de Castro, que para o sustento da família, desempenhava a profissão de alfaiate.

Nildo aprendeu com os grandes. Seguiu para São Paulo, na juventude. Na Capital, repetiu o êxito de outros jornalistas escritores que partiram do Interior para viver o jornalismo dinâmico e exigente da Capital paulista, como Ignácio de Loyola Brandão que deixou Araraquara tendo São Paulo como destino profissional.

Costumava definir Nildo como o Albert Camus de Marília. Assim como o prêmio Nobel francês de origem argelina, Nildo teve uma infância dura – mas o que não lhe impediu de sonhar em ser um intelectual. Leu e se aperfeiçoou. Aprendeu e escreveu.

Nildo fará muita falta, principalmente para ensinar uma geração de profissionais da comunicação e imprensa que chega exalando o ódio. Sectários, não querem a ampliação da visão humanista.

Muitos, simplesmente, reproduzem aquilo que lhes chegam de forma imediata e simultânea, negligenciando a função básica do jornalista: checar a origem da informação antes de transformá-la em notícia.

Era um escritor nato. ‘Olho por olho’, por exemplo, lhe ocorreu no período em que acompanhou as execuções de uma obra de uma das grandes empreiteiras brasileiras – numa época em que elas eram destaques pelos feitos e não por manterem diretores para engraxar esquemas de corrupção.

A última edição de Nildo foi na quinta-feira, dia 26. Antes de nos deixar, escreveu em seu blog sobre as aberrações do novo mandatário das terras do Norte, que, absurdamente, quer construir um muro bem na fronteira do maior país que fala o segundo idioma oficial de sua própria nação.

Nildo discorreu lembrando que, no passado, houve um muro que dividia uma mesma nação: a alemã. Conservo comigo os dois livros que o mestre Nildo me presenteou em nosso primeiro e único encontro, ocorrido em 10 de dezembro do ano passado.

Até então, nos conhecíamos pelas letras, nas constantes trocas de e-mails, através da literatura que praticávamos: ele em São Paulo e eu em Marília.

Ao deixar este encontro, no começo da noite de um sábado de chuva, me ocorreu uma frase que havia lido do argentino Jorge Luís Borges.

O poeta portenho, já com a cegueira avançada e se locomovendo com cuidado, descreveu a sua visita física aos Estados Unidos. Antes, dizia o argentino, esteve na nação de William Faulkner pelos romances, seja na poesia de Walt Whitman ou nos contos de Poe.

Mesmo encontrando uma única vez, mas já sabendo de toda a sua trajetória e leitor do jornalismo e literatura que produzida, parecia que Nildo tinha sido uma presença constante em todos os anos em que estive numa redação.

Auto-retrato Cândido Portinari

A tela que ilustra o artigo é ‘Auto-retrato’, de 1957, de Cândido Portinari.